Camões:Túmulo
nos Jerónimos poderá não conter os restos mortais do poeta
Lisboa, 09 jun (Lusa) – O
túmulo referente a Luís de Camões existente no Mosteiro dos
Jerónimos, em Lisboa, tem grande probabilidade de não
conter os restos mortais do poeta, afirmou um especialista
em estudos camonianos.
Vítor
Aguiar e Silva explicou à Lusa que, “com grande
probabilidade, as ossadas guardadas no mausoléu dos
Jerónimos “não são de Camões”.
O poeta terá sido sepultado na Igreja de Sant’Ana, em
Lisboa, próxima da casa onde vivia a sua mãe, na calçada de
Santana, mas “não se sabe exatamente onde foi colocado o
cadáver, se dentro, se fora da igreja ou se até numa
fossa”, sublinhou Aguiar e Silva.
Supõe-se que teria ficado sepultado do lado esquerdo da
entrada principal da igreja e, anos mais tarde, D. Gonçalo
Coutinho mandou colocar no local uma lápide de mármore em
que refere Camões como “Príncipe dos Poetas do seu tempo”,
que faleceu em 1579.
Vítor Aguiar e Silva afirmou à Lusa que “a memória falha”,
o que justifica o engano no epitáfio do poeta, dando antes
crédito ao documento da chancelaria de Filipe I (II de
Espanha) que atribui uma tença à mãe de Camões e afirma que
este morreu a 10 de junho de 1580.
No entanto, desde o sepultamento, em 1580, à trasladação,
três séculos depois, deu-se o terramoto de 1755, que
destruiu muito a igreja, que foi ainda alvo,
posteriormente, de obras para a construção de um coro alto.
Para Aguiar e Silva, “no estreito rigor histórico” ninguém
sabe ao certo onde estão os restos mortais de Camões e “há
as maiores dúvidas” que se encontrem na arca tumular nos
Jerónimos, de autoria de Costa Mota Pio, onde
invariavelmente Chefes de Estado e estadistas
cerimoniosamente colocam coroas de flores quando visitam
Portugal.
Os restos mortais do autor de “Os Lusíadas” foram
transladados em 1880 para o Mosteiro dos Jerónimos, numa
altura de exaltação patriótica a que não foi alheia a
propaganda republicana que já se fazia sentir.
Uma comissão foi constituída e encarregada por Rodrigo da
Fonseca, então ministro do Reino, de encontrar as ossadas
do lírico e lhe dar sepultura digna, o que veio a acontecer
no tricentenário da sua morte (1880).
Todavia, como alerta Aguiar e Silva, “até a própria
comissão tem dúvidas da autenticidade do que trasladou”.
No relatório da comissão pode ler-se, referindo os
trabalhos de escavação empreendidos em 1858, que “a uma
certa altura [viram-se] ossos em fórma que se lhe não tinha
mexido. Alguns d'estes eram pois sem duvida os de Luiz de
Camões; mas quaes, se nem era possivel distinguir a
sepultura”.
A comissão procurava a pedra de mármore mandada colocar por
D. Gonçalo Coutinho, que não encontrou. Resultado, aliás,
análogo a buscas anteriores, em 1836, que não chegaram a
qualquer conclusão quanto às ossadas de Camões.
Para o camonista Aguiar e Silva, esta incerteza não retira
o “valor simbólico” que tem o túmulo nos Jerónimos e até
sublinha que “é bom que tenha!”.
O estudioso da obra de Camões, afirma que ler “Os
Lusíadas”, obra maior do lírico, “é fundamental para
entendermos aquilo que fomos e o que somos”, logo que
caminhos escolher para o futuro.
“‘Os Lusíadas’ são um texto fundamental para a compreensão
de Portugal” quando “lidos na sua grandeza e profundidade”,
atestou o camonista.
NL.
Lusa/Fim