
O grupo de portugueses que esteve na origem da Shelton Portuguese
A comunidade portuguesa de Bridgeport, no estado de Connecticut, tem vindo a mudar-se nos últimos anos para as cidades mais pequenas dos subúrbios, locais com melhor qualidade de vida, impostos mais baixos, melhores escolas e áreas residenciais mais sossegadas. Longe vai o tempo em que os emigrantes chegavam de Portugal e se instalavam nas grandes áreas metropolitanas, onde havia fábricas que proporcionavam trabalho e familiares já instalados que lhes davam a mão. Eram tempos de adaptação ao novo país e as exigências de comodidade eram poucas, pois a prioridade era ganhar dinheiro para amealhar ou mandar para a terra. Os tempos livres eram escassos e o único entretenimento era o clube português local, que fazia por manter um pouco das tradições portuguesas oferecendo jogos de cartas, bar e festas populares à imagem das que se realizavam nas suas terras de origem. As preocupações educacionais ou culturais destas associações nunca foram muitas, até porque os seus membros ou não o exigiam, ou se contentavam com o que elas lhes davam. Com o fim da emigração vinda de Portugal e o aumento do estatuto sócio-económico da comunidade portuguesa, as coisas começaram a mudar e estes clubes ou associações foram perdendo a sua força e influência. À medida que o emigrante vai ganhando estatuto, ganha também espírito crítico e passa ser mais exigente. E com o fecho das fábricas e a deslocação do trabalho, inicia então o movimento natural de deslocação paras os subúrbios, afastando-se do clube, da igreja ou da associação que já não são necessários para lhe manter o vínculo à terra, cada vez mais ténue, devido à integração no ‘melting pot’, mas sempre saudoso.
As segundas gerações há muito que tinham cortado este cordão umbilical com os clubes, até porque eles pouco ou nada lhes ofereciam. A pouco e pouco, sem que o tenham provocado, estas gerações vão de novo encontrar-se, mas desta vez fora do espaço de influência tipicamente português do bairro da grande urbe, do clube ou da igreja portuguesa. Agora encontram-se nas zonas residenciais dos subúrbios, e é aqui que recriam, inconscientemente, de novo, essa ligação, agora não à terra que deixaram em Portugal, mas à cultura e à portugalidade, sentimentos com que ambos se identificam.
Shelton Portuguese Cultural Association
Este fenómeno não é novo nem específico de uma etnia ou grupo. Aconteceu com outras culturas ou grupos de emigrantes de outras nacionalidades e está agora a acontecer connosco. Veja-se o caso de Bridgeport, onde a comunidade portuguesa se foi deslocando do centro para a periferia, instalando-se em cidades como Shelton, Trumbull, Fairfield, Monroe, Oxford, Easton, etc. Ora foi para juntar estas sinergias e apostar num movimento de congregação desta força lusa ou luso-descendente, que um grupo de cidadãos residentes em Shelton decidiu pôr mãos à obra e lançar uma associação — Shelton Portuguese Cultural Association — que não visa abrir bares ou realizar festas, mas sim envolver a comunidade num movimento cívico e cultural. A ideia partiu de Álvaro Silva e colheu os apoios imediatos de José Gaspar e Paula Pires, que lideram actualmente a iniciativa. Depois de terem explicado, por carta enviada a mais de 500 nomes portugueses residentes em Shelton, os objectivos do movimento, o grupo realizou uma primeira reunião no início de Dezembro que reuniu mais uma centena de pessoas. Álvaro Silva explicou à ComunidadesUSA que não se trata de competir com os actuais clubes portugueses, porque os objectivos são diferentes:
“O que nós queremos é envolver esta comunidade em torno de um projecto de participação cívica e política”, explica. “Nós somos muitos mas não temos qualquer força política, por isso precisamos de estar unidos em torno de um movimento que apoie candidaturas de luso-descendentes a cargos públicos, ou outros candidatos que sirvam os nossos interesses”, acrescentou.
Ao mesmo tempo, a associação pretende promover a língua e cultura portuguesa junto dos luso-descendentes e comunidade de acolhimento. Álvaro Silva, que está envolvido na política local de Shelton há mais de 30 anos, disse ainda que o primeiro passo vai ser registar todos os portugueses para votarem, naturalizar aqueles que ainda não têm a cidadania americana e depois criar estruturas para lançar candidatos portugueses. “Nós precisamos de ter uma voz política na cidade de Shelton e em outras municipalidades deste condado”, diz. “Se não tivermos candidatos portugueses, apoiaremos outros que defendam os nossos direitos como cidadãos, nomeadamente no Board of Eucation”, explicou.
Movimento não quer concorrer com o clube Português
Álvaro Silva disse também que este movimento não pretende concorrrer com o clube Português de Bridgeport, mas sim trabalhar em conjunto. “Uma das medidas em que poderíamos colaborar tem a ver com o ensino, pois é nossa intenção promover o ensino do português até ao 9º ano”, explicou. “Temos que ensinar língua e história e no Verão levar os alunos a Portugal”, acrescentou.
Para já a associação trabalha para conseguir o estatuto de ‘non profit organization” e não pretende a curto prazo ter sede própria. “Vamos criar comités para se encarregarem do funcionamento da associação, angariar fundos, promover actividades culturais, etc”, disse Álvaro Silva. “Esta associação é aberta a toda a comunidade de todas a cidades desta área”, acrescentou.
Para já, se o sucesso da primeira reunião tiver continuidade, a Shelton Portuguese Cultural Asociation pode contar com vida longa. É bom para as comunidades, como é bom para a nossa língua e cultura.