Manuel Freire: “Hoje as editoras só apostam em coisas efémeras, que se vendam rapidamente”
Manuel Freire, o homem “da Pedra Filsofal”, esteve em Newark na Festa da Proverbo, a secção literária do Sport Clube Português. Cantou os seus êxitos mais conhecidos, declamou poesia, brincou com as palavras e no fim fez um “encore” do poema de Gedeão. Uma noite inesquecível com um público que o ouviu com atenção do princípio ao fim. No final ainda teve tempo para falar com a ComunidadesUSA. Aqui fica o registo.
por António Oliveira (texto) e Cândido Mesquita (fotos)

ComunidadesUSA — Como foi este seu reencontro com o público e a comunidade da costa leste 9 anos depois?
Manuel Freire — Foi óptimo. Com um pormenor que não tinha existido antes aqui, mas que eu já fiz em Berkeley, na Califórnia, e em Rhode Island, na Universidade Brown, que foi o contacto com os estudantes universitários dos cursos de Português. Foi muito agradável, porque alguns nem têm ascendência portuguesa mas estiveram ali porque lhes interessa a história de Portugal e a literatura e durante uma hora e tal ouviram falar de poetas, do 25 de Abril e de canções, fazendo um paralelismo com Bob Dylan e Joan Baez, e o que as suas canções aqui representaram no tempo da guerra do Vietname, com a guerra colonial portuguesa
Hoje o público desta sala parece que também ouviu religiosamente o Manuel Freire cantar...
Sim, é sempre uma coisa que me comove e que me agrada imenso, pois não há nada pior que a gente estar a actuar e as pessoas a fazerem barulho. Este foi um público magnífico e esta visita permitiu-me ainda reencontrar amigos que eu não via no mínimo há 9 anos, e alguns deles foram meus companheiros da idade dos 20 anos.
Sei que tem ido à Califórnia também regularmente. Nota alguma diferença entre essas comunidades?
Sim, noto na medida em que naquele lado há muito mais açorianos. Aqui tenho mais gente que eu conheço porque são da minha zona. Na Califórnia, porque não conheço muita gente, a comunicação já não tem tanto a ver com os afectos ou com os conhecimentos familiares, tem a ver com outras coisas, e vai-se construindo. Eu aqui, mesmo que desafinasse tenho a certeza que teria 20 ou 30 amigos que iam gostar à brava porque são meus amigos há 50 anos. Na Califórnia é diferente, há um esforço maior, porque as pessoas não me conheciam de lado nenhum.
Deve ser reconfortante atravessar o Atlântico e chegar aqui e encontrar um público predisposto a ouvir este género de música e estas poesias.
Sim, mas não é só para me ouvirem a mim, é sobretudo para ouvir os poetas que, coitados, são tão maltratados e tão ignorados que é bom ver o esforço que faz este grupo da Proverbo em prol da língua; e ver também que ainda há 200 ou mais pessoas que vêm uma noite a um espectáculo para ouvir poesia. Isso é extraordinário.
Mudando de assunto, acha que as reformas políticas em curso em Portugal são um abandono dos ideais de Abril?
Eu julgo que não, que não os abandonámos. Agora cada vez o “dom dinero” — que era uma canção do Paco Ibanez dos anos 60 escrita sobre um texto do século XVI sobre a importância do dinheiro e do seu poder —, é que manda. E cada vez mais estamos nesse mundo, cada vez há menos ideais, menos princípios éticos, e o dinheiro compra tudo e as pessoas orientam-se por ele. E nós vamos a pouco e pouco entrando nesse esquema, como entramos noutros, como o do consumismo, por exemplo. Agora eu julgo que esses ideais de Abril não morreram ainda em muita gente em Portugal, e nós vemos isso até nas manifestações na rua, pois as pessoas continuam a acreditar que têm direito a um futuro melhor e a lutar por isso.
Com toda esta crise, ainda há gente disposta a ouvir cantar os bons poetas em Portugal em espectáculos deste género?
Sim, em todo o lado há gente disposta a ouvir. Uma coisa que é reconfortante e ir às escolas secundárias (sobretudo em Abril eu faço muito isso em escolas) e encontrar turmas participantes, cheias de perguntas. Isso para mim é quase a energia para o ano inteiro. Encontrar miúdos que se interessam por saber coisas sobre o 25 de Abril e que fazem perguntas aos poetas, dá-nos uma esperança para acreditar no futuro.
Quanto a projectos, tem algum novo disco na forja?
Depois que fui eleito para presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2003, reduzi muito os meus espectáculos e recitais. Este ano fiz com o Vitorino e com o José Jorge Letria um disco sobre o 25 de Abril, e tenho um outro sobre o Vitorino Nemésio na gaveta, composto por 11 poemas que musiquei. Mas não tenho dinheiro para fazer uma edição de autor e lançar o disco. Por isso estou à espera que alguma entidade ligada à cultura apoie o projecto.
Hoje em dia as editoras já não apostam na música de qualidade?
Não, hoje as editoras apostam em coisas efémeras, que se vendam rapidamente. Coisas em que só realizem dinheiro ao fim de um ano ou mais, ninguém quer. Isto de cantar poetas já foi chão que deu uvas, pois as editoras não apostam nisso.
Quando é que vai voltar a cantar nos Estados Unidos?
Quando me convidarem, regresso com todo o gosto. Há projectos e ideias, mas nada de concreto.